Por Jorge Wamburg
A morte de Itamar Franco, na semana passada, me trouxe à memória um dos episódios mais marcantes da minha carreira jornalística em Brasília. De certa forma, tem algo a ver com esporte, e vou contar aqui no blog para ficar como registro histórico de um fato que mobilizou os jornalistas da cidade, depois de um “furo” que dei no radio, envolvendo o então Presidente da República. Aconteceu num sábado à noite, em 1993, alguns meses depois de Itamar Franco assumir a Presidência da República, no lugar de Fernando Collor, após o impeachment decretado pelo Congresso.
Para quem não conhece Brasília, preciso explicar que o Parkshopping, já naquela época era, como até hoje, o maior e mais concorrido shopping da cidade, contando, entre outros atrativos, com 12 salas de cinema. Eu estava na fila de um deles – não me lembro qual o filme que ia ver – enquanto minha mulher dava uma volta para olhar as vitrines. De repente, a uma distância de uns 40 metros, passeando despreocupadamente, vi alguém que me pareceu Itamar Franco, com o braço sobre o ombro de uma jovem e bonita morena. Fiquei estupefato, por conhecê-lo bem de perto, já que cobria como jornalista o Congresso e o Planalto há alguns anos, e o havia entrevistado várias vezes, antes e depois de assumir a presidência. Mesmo assim, a princípio, fiquei em dúvida se seria ele mesmo ou algum sósia, mas logo me convenci que era o original, dando uma de suas famosas escapadas do Palácio, sem a incômoda companhia de seguranças ou puxa-sacos de plantão.
Na época, eu trabalhava na Rádio CBN e decidi que não poderia perder aquela notícia, que poderia ser exclusiva, já que, aparentemente, também não havia jornalistas na cola do presidente. Minha mulher demorava a voltar para a fila do cinema e eu já estava impaciente, mas finalmente ela chegou. Pedi que ficasse na fila e se eu demorasse comprasse o ingresso, pois tinha que checar o que acabara de ver. Saí rápido, quase correndo, e alcancei o presidente já do lado de fora do shopping, caminhando para o estacionamento. Aproximei-me e falei:
- Boa noite, presidente, como vai o Senhor?
- Oi, tudo bem (ele parecia ter me reconhecido).
- Presidente, desculpe perguntar, mas o que o senhor está fazendo por aqui?
- Ah, eu vim ao cinema.
- E que filme o senhor veio ver?
- Forrest Gump. Mas está lotado e não deu para entrar. Por isso, estou indo embora.
- Presidente, e quem é essa moça?
- Ah, essa é a Júnia, minha namorada.
A essa altura, já havíamos chegado ao carro e Júnia abriu a porta para tomar a direção. Itamar foi no banco do carona. Júnia sorriu, fez um aceno com a cabeça, e deu a partida. Itamar se despediu:
- Boa noite.
- Boa noite, presidente, e obrigado pela atenção.
Eles partiram e eu voltei o mais depressa que pude para o cinema. Luzia já havia comprado os ingressos e me esperava na entrada. A sessão já ia começar, mas eu disse a ela que esperasse um pouco, pois tinha que telefonar para a rádio imediatamente para passar a notícia de que Itamar tinha uma namorada e fora com ela ao cinema naquela noite.
Detalhe: o celular ainda não tinha sido inventado e tive que ir a um orelhão, fora do cinema. Liguei para a central técnica da CBN e pedi para entrar ao vivo com a matéria. A resposta me deixou arrasado:
- Não dá pra entrar ao vivo. Temos um programa gravado no ar e não podemos interromper. É melhor você gravar e a gente coloca quando terminar.
Não havia outro jeito e foi o que eu fiz. Depois, fui assistir ao filme com minha esposa, mas com a cabeça na matéria do Itamar. Achava que tinha perdido o furo, pois a matéria gravada só iria ao ar depois de meia-noite. Foi o que aconteceu. Praticamente ninguém tomou conhecimento do meu furo...até a manhã de domingo. A CBN, como se sabe, é, ainda hoje, a rádio que repete a notícia e a matéria foi novamente ao ar pela manhã. Ai, estourou como uma bomba nas redações da cidade. Ligaram da redação da rádio, perguntando se podiam dar meu telefone para os repórteres de plantão, que não paravam de ligar para lá, para confirmar a notícia. Claro que concordei, e vários colegas me ligaram. Contei como tudo acontecera, e alguns pareciam duvidar, pois tinham levado um “furo” espetacular e ficaram chateados. Houve até um deles que comentou com amigos meus que eu “tinha ficado maluco”, pois ninguém conseguia confirmar nada com a assessoria de imprensa do Planalto. O que era óbvio, pois Itamar tinha dado uma fugida, sem seguranças ou assessores, para passear com sua amada.
Mas, como diz o ditado, ri melhor quem ri por último. Lá pelas cinco horas da tarde, houve um alvoroço nos plantões das redações de Brasília. Estava acontecendo na cidade uma feira do livro e Itamar havia acabado de chagar. Mais uma vez sem seguranças e...só com a Júnia (que depois se saberia ser Drummond, uma jovem servidora pública mineira) como companhia. Estava confirmada a informação dada em primeira mão pelo repórter Jorge Wamburg na CBN, quase 24 horas antes. A partir dali o namoro de Itamar virou notícia constante na imprensa. E o “maluco” do Wamburg recebeu o reconhecimento de muitos colegas que estavam naquele plantão, como William França, hoje assessor de imprensa do vice-presidente Michel Temmer. Já um outro colega acabou se troando uma vítima do meu “furo”: ele não acreditou na história e perdeu a visita de Itamar e Júnia à feira do livro. Isso lhe custou o emprego.
Quem foi Forrest Gump
Forrest Gump, o personagem interpretado por Tom Hanks no filme que Itamar não viu em Brasília, era um sujeito extraordinário, apesar de um certo retardo mental. Tudo lhe acontecia por acaso e sorte: na infância, teve que usar aparelho ortopédico nas duas pernas e acabou se tornando um corredor vitorioso porque precisava fugir às carreiras dos outros garotos que gostavam de persegui-lo. Tornou-se herói de guerra no Vietnam, por conseguir carregar nas costas colegas feridos num ataque de vietcongues. Entre outras façanhas, aprendeu a jogar ping-pong e foi parar na equipe de tênis de mesa dos Estados Unidos, enviada pelo presidente Nixon à China para iniciar um relacionamento diplomático com os comunistas chineses. E ficou milionário com a pesca de camarão, depois de um vendaval que destruiu todos os barcos concorrentes na baía onde pescava. Seu sócio era justamente o tenente de sua companhia no Vietnã, que perdeu as pernas e ele carregou nas costas, correndo até um lugar seguro onde foram resgatados.
