domingo, 31 de julho de 2011

Copa de 2014 - Homenagem ao malandro...

Por Jorge Wamburg
Homenagem ao malandro 
Chico Buarque/1977-1978
Para a peça Ópera do malandro, de Chico Buarque

Eu fui fazer um samba em homenagem
À nata da malandragem
Que conheço de outros carnavais
Eu fui à Lapa e perdi a viagem
Que aquela tal malandragem
Não existe mais

Agora já não é normal
O que dá de malandro regular, profissional
Malandro com aparato de malandro oficial
Malandro candidato a malandro federal
Malandro com retrato na coluna social
Malandro com contrato, com gravata e capital
Que nunca se dá mal

Mas o malandro pra valer
- não espalha
Aposentou a navalha
Tem mulher e filho e tralha e tal

Dizem as más línguas que ele até trabalha
Mora lá longe e chacoalha
Num trem da Central
O que é que a Copa do Mundo de 2014 tem com este samba genial de Chico Buarque? Tudo, na minha opinião, quando o Rio de Janeiro – Prefeitura e governo – gastam nada menos do que R$ 30 milhões apenas para promover o sorteio dos grupos, na Marina da Glória. Isso é apenas uma demonstração do que vem por aí, em matéria de roubalheira com dinheiro público, que já está pipocando em diversas áreas das obras para o evento.
Prefeito e governador do Rio são os responsáveis por essa ignominiosa gastança, que não tem a menor justificativa. Em nenhuma outra Copa houve tal demonstração de desprezo pela população, que poderia ter uma série de necessidades atendidas com o dinheiro empregado na nababesca festa. 

Mas eles não atuaram sozinhos: por trás, estavam o governo federal, incentivando a pouca vergonha com a presença da presidenta DR, o presidente da  CBF e do Comitê Organizador Local da Copa (COL) e a TV Globo, que deu até os apresentadores do evento. 

Outros envolvidos são o presidente da Fifa e corrupto-mor do futebol mundial, Joseph Blatter e Pelé, que ganhou um cala-boca de Embaixador Honorário da Copa da presidenta e logo entrou no jogo criticando quem fala contra toda a safadeza que está rolando.

Eles todos são os personagens do samba do Malandro, do Chico Buarque, lá em cima.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

A verdade após 2014

Por Jorge Wamburg
Pesquisando meus arquivos sobre a Copa de 2014 que o Brasil vai sediar, encontrei o artigo que reproduzo a seguir, escrito no ano passado por um jornalista britânico. É um texto que se torna atualíssimo, no momento em que cresce a polêmica sobre os gastos astronômicos que o Brasil fará para sediar o Mundial, e as dúvidas sobre o custo benefício que teremos, principalmente quanto ao dinheiro público que será gasto no evento, como a isenção fiscal de R$ 400 milhões da Prefeitura de São Paulo para a construção do Itaquerão do Corinthians, e o “empréstimo” de outros R$ 400 milhões ao Corinthians com a mesma finalidade, que tudo indica vai ser mais um calote para o contribuinte pagar, pois nunca vi clube de futebol quitar uma dívida desse porte. A justificativa do prefeito Gilberto Kassab é a previsão de um “retorno” de R$ 1 ,5 bi só com a abertura da Copa na cidade.

Leiam o artigo de Simon Kupper, escrito no ano passado, e saibam porque o prefeito está delirando, depois do que aconteceu na Copa de 2010.
África do Sul não teve legado e Brasil também não terá
Simon Kuper* 
Aconteceu há cerca de um mês na África do Sul e forneceu um presságio de como terminarão a Copa de 2014 e a Olimpíada 2016, no Brasil. Num sábado gelado em Johannesburgo, dezenas de autoridades brasileiras estavam em um centro de convenções chique, para ouvir representantes sul-africanos explicar como é, realmente, sediar uma Copa - nas palavras de um dos sul-africanos, para ouvir sobre "alguns dos cortes e contusões que sofremos”. 

Os brasileiros ouviram coisas pouco animadoras. Talvez a mais desanimadora tenha vindo de uma senhora (cujo nome não citarei), alta funcionária de Gauteng, a Província onde fica Johannesburgo. Ela contou que, no início de 2009, analisou o impulso econômico projetado que a África do Sul vinha dizendo a seus cidadãos que a Copa traria ao país. Ela olhou e não encontrou quase nada. 

A África do Sul vinha dizendo (como está dizendo o Brasil agora) que o Mundial aumentaria o turismo, geraria empregos, levaria à construção de infraestrutura útil e assim por diante. O que ela percebeu em 2009 foi que: "[A Copa] não nos traria os benefícios que tínhamos dito ao país que nos traria". É verdade que o torneio melhoraria um pouco o transporte público de Johannesburgo, mas "não tanto quanto pensávamos”. 

E assim, mais de um ano antes do pontapé inicial, Gauteng deixou de lado as esperanças de um reforço econômico. Em vez disso, passou a enxergar a Copa do Mundo como exercício de "branding" -"praticamente um comercial de 30 dias de duração de Gauteng". E isso foi tudo o que ela mostrou ser, disse a senhora aos brasileiros.

Perguntei a ela por que todo o tão divulgado reforço econômico não chegara a acontecer. Novamente ela foi franca. "Se você analisar as pesquisas sobre megaeventos, todas as conclusões são que os retornos econômicos são altamente inflados por pessoas que esperam lucrar com os eventos." É por isso que consultorias contratadas pelo governo brasileiro para "estimar" (ou adivinhar) o reforço econômico que o Brasil terá com sua Copa e sua Olimpíada escrevem relatórios tão otimistas.
A história contada por essa senhora é a história de quase todas as Copas, das Olimpíadas e dos estádios construídos pelos contribuintes: o estímulo econômico prometido nunca chega a se concretizar, como Stefan Szymanski e eu mostramos em nosso livro "Soccernomics". O Brasil vai descobrir a mesma verdade depois de 2014.
*Simon Kuper é colunista do jornal britânico "Financial Times" e co-autor do livro "Soccernomics". Tradução de Clara Allain. Publicado originalmente no caderno "Esporte" da "Folha de S.Paulo" em 3/8/2010

terça-feira, 19 de julho de 2011

Mano e o complexo de cachorro vira-lata

Por Jorge Wamburg
Copa América já era para o Brasil e só resta a curiosidade de ver se o Uruguai confirma o favoritismo, depois da queda de brasileiros e argentinos, ou se vai dar zebra, com um Peru da vida ou Venezuela faturando o titulo. 
Acho difícil, até mesmo para o Paraguai, mas agora a gente já não pode duvidar de nada. Em matéria de seleção brasileira, vou encerrar o assunto. 

Pra que ficar levantando teorias sobre a derrota, quando todo mundo viu o que aconteceu: Brasil campeão mundial de pênalti mal batido!
 O quarteto fantástico tem que assumir e reconhece: “Somos uns merdas. Nunca mais vamos bater pênalti”. E ponto final.

Só resta dizer que o Mano Menezes precisa acabar com essa babaquice de chamar jogador pra seleção só porque está jogando num clubeco qualquer lá de caixa prego. Isso não passa do complexo brasileiro de cachorro vira-lata, de que o Nelson Rodrigues tanto falava, e que ainda assola nossos técnicos, apesar dos cinco títulos mundiais que ganhamos.
Um problema que já vinha ocorrendo com os outros treinadores, ficou pior na era Dunga e continua com o Mano. André Santos, por exemplo, não passa de um perna-de-pau que só teria vaga aqui na série B e olhe lá.

Esse é um dos problemas. Vejam, por exemplo, o caso do Júlio César: vem frangando desde a Copa da África do Sul e continua sendo convocado como ainda fosse o melhor goleiro do mundo. Não é e nunca foi, mesmo sendo titular da Inter de Milão. Qualquer dia, vai ser barrado por lá, onde também tem frangado escandalosamente.

Por aqui, melhores, do que ele, temos, por exemplo, Rogério Ceni (São Paulo), Fábio (Cruzeiro) e Fernando Prass (Vasco), que nunca vão ser chamados porque jogam no Brasil. Podem dizer que ele chamou o Vitor e o Jefferson.  Chamou, mas não deixou jogar, só porque são prata da casa.

Esse negócio de convocar jogador que está no exterior cheira a jogada para agradar empresário. Qualquer pé-rapado de clubeco europeu ou asiático tem mais chance de ser convocado do que os daqui. Outro dia, na televisão, estavam dizendo que alguns desses convocados são do mesmo empresário do Mano. E ele não desmentiu. O campeonato brasileiro é a melhor vitrine do futebol mundial e somos penta não é à toa. Mas na hora de convocar, Don Mano vê primeiro os de fora, pra valorizar a turma do empresário. Que vergonha! Ta na hora de acabar com isso!

Outra coisa: o Mano disse na entrevista, antes de vir embora, que a seleção não vai chegar à Copa de 2014 cambaleando, senão ele pede o boné. Como o Brasil não precisa disputar as Eliminatórias, por ser o país sede, ele vai ter que mostrar serviço nos amistosos e, principalmente na Copa das Confederações, em 2013, que também vai ser no Brasil
E se quiser ficar no cargo, ou ele acaba com a máscara do Crista de Galo (Neymar), Ganso e Pato ou vamos dar sempre com os burros nágua, pra falar só dos “pavões” da seleção, já que estamos tratando da turma do poleiro.

Não dá pra passar a mão na cabeça sempre dos “meninos”, como ele diz, depois de uma pisada de bola de todos eles, como a do jogo com o Paraguai. Até porque, de meninos, eles não têm nada. Na hora de contar dinheiro, comprar carro importado, apartamento e comer as marias-chuteiras dos clubes eles não são nada meninos. Até porque, como diz o ditado, “menino não faz menino”.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

O tatu, o Mano e o pênalti de calcanhar

Por Jorge Wamburg
A Copa América acabou para a seleção brasileira como uma verdadeira comédia de pastelão. 
E o pior de tudo é que chega a segunda-feira e aparece na televisão um sujeito cobrando um pênalti ... de calcanhar e – pasmem! – fazendo o gol. 
E não foi numa pelada amadora, não. Foi num campeonato das arábias, mas em jogo oficial e tudo. Vejam só, parece até que foi uma provocação a esses quatro infelizes de camisa amarela que pareciam estar chutando o pau da barraca, em vez de uma bola de futebol. E chutaram mesmo, chutaram a Copa América pro alto.

Pra falar a verdade, antes de começar a decisão por pênaltis, quando eu vi os batedores do Brasil eu já comecei a achar que ia dar a Lei de Murphy, aquela segundo a qual quando um negócio tem tudo Pra dar errado...acaba dando errado. E quando os caras começaram a implicar com a marca do pênalti, eu tive certeza. 
Até comecei a brincar na sala, lembrando uma propaganda que está passando na televisão e que parece até de encomenda: o jogador se prepara pra bater o pênalti, toma distância, corre e...a bola desaparece num buraco no momento do chute, porque um tatu veio e cavou por baixo...

No caso do Brasil, a culpa só pode ter sido do tatu. E do Mano Meneses, que com o jogo empatado e já a caminho da prorrogação, substituiu Pato, Ganso e Neymar, e teve que escalar uns caras que só sabem dar bicão pra bater os pênaltis, com exceção do Fred, que, visivelmente amarelou, além de ter sido atrapalhado pelo tatu...  Se eu fosse o Mano, chamava o cara do calcanhar pra ensinar pra eles...

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Ninguém é favorito da Copa América

Por Jorge Wamburg
Ganhamos, conforme eu previ ontem (13) e, se não fosse o Júlio César, teria sido uma goleada de 4 a 0. 
Apesar dos sustos com uns chutes perigosos dos equatorianos de fora da área, a seleção fez o que precisava e, mesmo sem dar show, garantiu a classificação para as quartas-de-final, com um 4 a 2 que demonstra bem a sua superioridade técnica sobre o Equador. 

Neymar e a dupla aviária Pato e Ganso 
jogaram uns 20% do que sabem e isso bastou, num dia em que a zebra só apareceu no início e depois foi comer seu capim sem incomodar mais ninguém. 
Não vou perder tempo com altas elucubrações técnicas, pois não sou comentarista de TV, que precisa justificar o salário inventando mil problemas pra justificar o salário. Também não acho que foi uma exibição de gala, longe disso, e estamos muito longe de sermos favoritos ao título da Copa América.
Mas também ninguém é.

Brasil, Uruguai e Argentina estão no mesmo nível e, numa decisão, que deverá ser mesmo entre dois desses três, as chances são iguais. Aliás, como Uruguai e Argentina vão decidir a vaga nas semifinais no sábado e um deles já vai estar fora no domingo, quando o Brasil enfrenta o Paraguai em outra partida decisiva. E deve ganhar também, em minha opinião, se jogar pelo menos no mesmo nível de ontem, contra o Equador.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Vamos seguir o exemplo da Argentina



Por Jorge Wamburg
Hoje, quarta-feira 13, a seleção brasileira define sua sorte na Copa América, contra o Equador.
Ou ganha ou volta pra casa. mas eu acho que ganha
. Mesmo depois do empate com a Venezuela, somos favoritos nessa partida e, exatamente por ser decisiva, acho que vamos faturar os equatorianos. 


Não me preocupa a escalação que o Mano vai botar em campo, porque acredito que vamos ganhar com qualquer time, pois a turma está mordida com as más atuações e as críticas, principalmente da parte neurótica da crônica, aquela que sofre do Transtorno Bipolar de que falei outro dia. 


É certo que a seleção está jogando abaixo do que se esperava, mas não vejo motivo pra tanto pânico. É o só seguir o exemplo da Argentina: na hora que precisou, foi lá e meteu 3 a 0 na Costa Rica, com Messi fazendo gol e, finalmente, acordando para o futebol novamente. 


Além disso, tenho certeza que o Mano deve ter dado uma boa sacudida no Neymar e no Ganso principalmente e eles não vão dar as bobeiras dos últimos jogos. Ainda mais que é só quarta-feira 13, e não sexta. 

Aliás, pior ainda é se fosse 16 de julho, que todo mundo ia associar ao Maracanazo da final da Copa de 1950, contra o Uruguai, apesar dos 61 anos passados e de uma coisa não ter nada a ver com a outra.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

TRANSTORNO BIPOLAR

Por Jorge Wamburg 
Como sempre, a crônica esportiva fica à beira de um ataque de nervos quando a seleção não consegue vencer um adversário mais fraco, como foi o caso da Venezuela, na estréia na Copa América. Prova disso foram as manchetes escandalosas dos jornais no dia seguinte, a começar pelo Globo, que escancarou na primeira página do Caderno de Esportes – por sinal, muito chinfrin, quando comparado a outros jornais – a foto do cachorro que invadiu o campo durante a partida para ilustrar a manchete “Futebol Vira-Lata”. Outros jornais usaram o futebol feminino para sacanear os marmanjos, com frases do tipo “Ensina a eles, Marta”.

Não sou daqueles torcedores ou jornalistas que ficam babando pela seleção em qualquer vitória, mas também não entro em pânico por uma resultado como o 0 X 0 com a Venezuela. Toda essa histeria é típica da nossa imprensa esportiva, que sempre sofreu – e continua sofrendo – de Transtorno Bipolar quando se trata de seleção. Trata-se de um mal psíquico, em que o paciente vive entre a extrema euforia e a depressão mais profunda por qualquer motivo – ou sem motivo nenhum. 

Agora, por exemplo, nossa crônica esportiva está na fase negativa, doida pra ver a caveira de Mano Meneses, Neymar, Ganso e todo o resto
, pra depois passar semanas chafurdando em manchetes e comentários depressivos. Tem muito jornalista que trabalha pelo “quanto pior, melhor”, por achar que dá mais Ibope do que elogio.

Acho que o empate com a Venezuela não foi nada demais
. O time não jogou um futebol primoroso, mas também não foi esse lixo todo que andaram falando. Podia ter faturado os venezuelanos, mas não soube transformar em gols as chances que teve. Só isso. Acontece com os melhores times de Roma e Paris, por que não com a nossa seleção? 

Não foi a primeira vez e não será a última.
Muito pior estão os argentinos, com dois empates e um futebol do tamanho do Messi, ou seja, pequenininho. Além o mais, nossos especialistas não querem admitir que os venezuelanos evoluíram e hoje, graças à globalização, mão tem mais bobo no futebol. Aquela história de que somos obrigados a ganhar sempre deles, acabou.

terça-feira, 5 de julho de 2011

O dia em que Itamar não conseguiu ver Forrest Gump

Por Jorge Wamburg

A morte de Itamar Franco, na semana passada, me trouxe à memória um dos episódios mais marcantes da minha carreira jornalística em Brasília. De certa forma, tem algo a ver com esporte, e vou contar aqui no blog para ficar como registro histórico de um fato que mobilizou os jornalistas da cidade, depois de um “furo” que dei no radio, envolvendo o então Presidente da República. Aconteceu num sábado à noite, em 1993, alguns meses depois de Itamar Franco assumir a Presidência da República, no lugar de Fernando Collor, após o impeachment decretado pelo Congresso.

 Para quem não conhece Brasília, preciso explicar que o Parkshopping, já naquela época era, como até hoje, o maior e mais concorrido shopping da cidade, contando, entre outros atrativos, com 12 salas de cinema. Eu estava na fila de um deles – não me lembro qual o filme que ia ver – enquanto minha mulher dava uma volta para olhar as vitrines. De repente, a uma distância de uns 40 metros, passeando despreocupadamente, vi alguém que me pareceu Itamar Franco, com o braço sobre o ombro de uma jovem e bonita morena. Fiquei estupefato, por conhecê-lo bem de perto, já que cobria como jornalista o Congresso e o Planalto há alguns anos, e o havia entrevistado várias vezes, antes e depois de assumir a presidência. Mesmo assim, a princípio, fiquei em dúvida se seria ele mesmo ou algum sósia, mas logo me convenci que era o original, dando uma de suas famosas escapadas do Palácio, sem a incômoda companhia de seguranças ou puxa-sacos de plantão.

 Na época, eu trabalhava na Rádio CBN e decidi que não poderia perder aquela notícia, que poderia ser exclusiva, já que, aparentemente, também não havia jornalistas na cola do presidente. Minha mulher demorava a voltar para a fila do cinema e eu já estava impaciente, mas finalmente ela chegou. Pedi que ficasse na fila e se eu demorasse comprasse o ingresso, pois tinha que checar o que acabara de ver. Saí rápido, quase correndo, e alcancei o presidente já do lado de fora do shopping, caminhando para o estacionamento. Aproximei-me e falei:
- Boa noite, presidente, como vai o Senhor?
- Oi, tudo bem (ele parecia ter me reconhecido).
- Presidente, desculpe perguntar, mas o que o senhor está fazendo por aqui?
- Ah, eu vim ao cinema.
- E que filme o senhor veio ver?
- Forrest Gump. Mas está lotado e não deu para entrar. Por isso, estou indo embora.
- Presidente, e quem é essa moça?
- Ah, essa é a Júnia, minha namorada.

 A essa altura, já havíamos chegado ao carro e Júnia abriu a porta para tomar a direção. Itamar foi no banco do carona. Júnia sorriu, fez um aceno com a cabeça, e deu a partida. Itamar se despediu:
- Boa noite.
- Boa noite, presidente, e obrigado pela atenção.

 Eles partiram e eu voltei o mais depressa que pude para o cinema. Luzia já havia comprado os ingressos e me esperava na entrada. A sessão já ia começar, mas eu disse a ela que esperasse um pouco, pois tinha que telefonar para a rádio imediatamente para passar a notícia de que Itamar tinha uma namorada e fora com ela ao cinema naquela noite.

 Detalhe: o celular ainda não tinha sido inventado e tive que ir a um orelhão, fora do cinema. Liguei para a central técnica da CBN e pedi para entrar ao vivo com a matéria. A resposta me deixou arrasado:
- Não dá pra entrar ao vivo. Temos um programa gravado no ar e não podemos interromper. É melhor você gravar e a gente coloca quando terminar.

 Não havia outro jeito e foi o que eu fiz. Depois, fui assistir ao filme com minha esposa, mas com a cabeça na matéria do Itamar. Achava que tinha perdido o furo, pois a matéria gravada só iria ao ar depois de meia-noite. Foi o que aconteceu. Praticamente ninguém tomou conhecimento do meu furo...até a manhã de domingo. A CBN, como se sabe, é, ainda hoje, a rádio que repete a notícia e a matéria foi novamente ao ar pela manhã. Ai, estourou como uma bomba nas redações da cidade. Ligaram da redação da rádio, perguntando se podiam dar meu telefone para os repórteres de plantão, que não paravam de ligar para lá, para confirmar a notícia. Claro que concordei, e vários colegas me ligaram. Contei como tudo acontecera, e alguns pareciam duvidar, pois tinham levado um “furo” espetacular e ficaram chateados. Houve até um deles que comentou com amigos meus que eu “tinha ficado maluco”, pois ninguém conseguia confirmar nada com a assessoria de imprensa do Planalto. O que era óbvio, pois Itamar tinha dado uma fugida, sem seguranças ou assessores, para passear com sua amada.

 Mas, como diz o ditado, ri melhor quem ri por último. Lá pelas cinco horas da tarde, houve um alvoroço nos plantões das redações de Brasília. Estava acontecendo na cidade uma feira do livro e Itamar havia acabado de chagar. Mais uma vez sem seguranças e...só com a Júnia (que depois se saberia ser Drummond, uma jovem servidora pública mineira) como companhia. Estava confirmada a informação dada em primeira mão pelo repórter Jorge Wamburg na CBN, quase 24 horas antes. A partir dali o namoro de Itamar virou notícia constante na imprensa. E o “maluco” do Wamburg recebeu o reconhecimento de muitos colegas que estavam naquele plantão, como William França, hoje assessor de imprensa do vice-presidente Michel Temmer. Já um outro colega acabou se troando uma vítima do meu “furo”: ele não acreditou na história e perdeu a visita de Itamar e Júnia à feira do livro. Isso lhe custou o emprego.

 Quem foi Forrest Gump
Forrest Gump, o personagem interpretado por Tom Hanks no filme que Itamar não viu em Brasília, era um sujeito extraordinário, apesar de um certo retardo mental. Tudo lhe acontecia por acaso e sorte: na infância, teve que usar aparelho ortopédico nas duas pernas e acabou se tornando um corredor vitorioso porque precisava fugir às carreiras dos outros garotos que gostavam de persegui-lo. Tornou-se herói de guerra no Vietnam, por conseguir carregar nas costas colegas feridos num ataque de vietcongues. Entre outras façanhas, aprendeu a jogar ping-pong e foi parar na equipe de tênis de mesa dos Estados Unidos, enviada pelo presidente Nixon à China para iniciar um relacionamento diplomático com os comunistas chineses. E ficou milionário com a pesca de camarão, depois de um vendaval que destruiu todos os barcos concorrentes na baía onde pescava. Seu sócio era justamente o tenente de sua companhia no Vietnã, que perdeu as pernas e ele carregou nas costas, correndo até um lugar seguro onde foram resgatados.

Saudades do Saldanha

Há 21 anos, no dia 12 de julho, morria João Saldanha. Foi na Itália, durante a Copa do Mundo de 90, e tenho certeza que foi uma escolha para sair da vida e entrar na história, coisa que poucas pessoas no mundo têm coragem de fazer. Isso porque ele viajou para a Itália já muito mal de saúde, contrariando recomendações médicas.
Ou seja, sabia que ia morrer e quis que acontecesse lá, durante a Copa, respirando até o ultimo instante o ambiente do futebol que fez parte de sua vida inteira, como botafoguense, dirigente e técnico da seleção brasileira. 

Sobre Saldanha, são muitas as histórias, mas hoje quero lembrar uma passagem de sua vida em que tive participação, quando trabalhava como repórter da editoria de Esportes do Jornal do Brasil, no Rio, e Saldanha era o colunista da nossa página. 

Eu não tinha muita intimidade com ele, mas um dia fui surpreendido com um pedido que não tinha nada com esporte: Saldanha soube que eu era advogado recém-formado e me pediu que convertesse seu desquite em divórcio, que há pouco tempo virara lei no Brasil, já que constituíra nova família há algum tempo. 

Fiz o que me pediu e, desde então, passamos a conversar muito mais sobre futebol, inclusive na Copa de 82, em que ambos trabalhamos pelo JB. O que sempre me impressionou nele foi justamente a sua simplicidade no trato com as pessoas, apesar de ser uma estrela do jornalismo brasileiro, na época, no auge da carreira como colunista do JB e comentarista de rádio e televisão. Era o nº 1 disparado e no rádio seus comentários chegavam a dar eco nos estádios, sintonizados em milhares de rádios de pilha pelos torcedores.
Foi criador de expressões que marcaram época na gíria esportiva, como a famosa “zona do agrião”, aquela região da pequena área onde o gol costuma acontecer. 

Seu humor irônico também marcou época e me lembro de dois exemplos: quando ia embarcar para a Itália, sua saúde o obrigou a se locomover em cadeira de rodas pelo aeroporto; um colega jornalista foi ao seu encontro e tentou ser agradável: “Ô Saldanha, tudo bem?” E ele: “Claro, eu gosto de andar de cadeira de rodas”
Outro episódio foi quando era técnico da seleção brasileira. Antes de um jogo, um repórter o abordou no campo e perguntou: “Saldanha, a grama está boa?”E ele: “Não sei, ainda não provei...”

João Saldanha
Aproveitando, a Globo News apresentou em 2010 um excelente programa em homenagem ao João Saldanha.
Peço vênia e reproduzo aqui, para que aqueles que o conheceram, matem a saudade e aqueles que só "ouviram falar", venham a conhecer um pouco do muito que fez João Alves Jobin Saldanha. Pelo futebol e pela vida!

Globo News - Especial João Saldanha - Parte 1

 Globo News - Especial João Saldanha - Parte 2


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Globo News - Especial João Saldanha - Parte 3