quarta-feira, 11 de julho de 2012

O Juiz ladrão



 - Por Jorge Wamburg - 
Foi em 1978, quando eu morava no Rio de Janeiro, onde nasci e fui criado. Um dia, aliás, uma noite, cheguei em casa do trabalho no Jornal do Brasil, onde era repórter da Editoria de Esportes, e de repente, comecei a sentir dores fortíssimas na barriga. Eram as dores mais fortes que já tinha sentido, que me faziam rolar e gritar na cama, deixando Luzia, minha mulher, desesperada e sem saber o que fazer.

Meu carro estava na garagem, mas ela não dirigia. Então pediu socorro aos vizinhos. Vieram dois que moravam no nosso andar e tiveram que me carregar até o carro de um deles, porque eu não conseguia andar. Me levaram para o Hospital São Lucas, em Copacabana, que tinha atendia pelo meu plano de saúde e fui imediatamente internado para exames, além, é claro medicado com analgésicos para aliviar a dor.

O diagnóstico veio horas depois: cálculo renal encravado na uretra. A solução talvez fosse cirúrgica, mas o urologista que me atendeu resolveu dar tempo à natureza, para que eu expelisse a pedra – que não tinha mais do que dois milímetros – naturalmente.  Fiquei internado num apartamento com camas para dois pacientes à espera de que meu organismo colaborasse pra não entrar na faca. Que nada!. Depois de 48 horas de espera, a pedra não saiu e veio a palavra final: tem que operar. E assim foi. Correu tudo bem, tiraram a pedra e eu fui para casa no início da semana seguinte.

Até aí, nada de mais, nem de menos. Cálculo renal é uma cirurgia banal, geralmente sem complicações e que hoje costuma ser feita a laser, como aconteceu na segunda que me aconteceu, já aqui em Brasília, muitos anos depois. Ao contrário da primeira, que foi com o tradicional bisturi, já que o laser nem existia na época. Mas o curioso dessa história aconteceu quando eu estava internado no São Lucas. Um dia, chegou outro paciente para o mesmo apartamento onde eu estava. O nome dele era Hélio, era juiz de futebol profissional, da Federação Carioca e havia sofrido um acidente de trabalho: rompeu ligamentos do tornozelo quando bandeirava uma partida do campeonato do Rio de Janeiro.

Lógico que eu, jornalista esportivo, e o Hélio, logo começamos a bater-papo sobre futebol.
Uma hora, chega visita pra ele. Era um colega de trabalho, também juiz de futebol, só que, ao contrário do Hélio, era o número 1 do país, do quadro da Fifa, no auge da carreira.
Nem precisava porque, obviamente eu conhecia o cara, mas fomos apresentados pelo Hélio e a conversa rolou animada. O visitante era também líder da classe e estava lá para fazer uma visita oficial ao Hélio, em nome dos colegas.
Lá pelas tantas, ele (visitante) me perguntou se eu era casado. Respondi que sim. Perguntou se eu tinha filho. Um, respondi. O nome? Wladimir.

O juizão perguntou qual o time do garoto, que na época, tinha nove anos de idade. É Vasco, falei com orgulho. O homem, então, pegou um papel na mesinha do Hélio, escreveu alguma coisa e me entregou, dizendo: “Leve para o Wladimir”. Era um autógrafo, com a seguinte dedicatória:

“Para o Wladimir, um abraço do
 Juiz Ladrão
 Arnaldo Cezar Coelho”

Nenhum comentário:

Postar um comentário