sexta-feira, 13 de julho de 2012

Havelange, Teixeira e as reeleições


 - Por Jorge Wamburg - 
Duas notícias de ontem no jornal: a justiça suíça divulgou os documentos do inquérito sobre subornos pagos pela ISL a dirigentes esportivos e confirmou que João Havelange e Ricardo Teixeira receberam gordas – e bota gordas nisso! - (propinas da empresa suíça, hoje, falida); e a Comissão de Desporto e Turismo da Câmara aprovou um projeto proibindo mais de uma reeleição de dirigentes de clubes e federações.

Vejo uma relação entre esses dois fatos porque se esse projeto acabar se tornando lei, aberrações como os casos de Havelange e Teixeira ficarão mais difíceis de acontecer, embora não impossíveis, porque , como diz o ditado, a ocasião faz o ladrão.
Mas, pelo menos, dirigentes como eles terão menos tempo para meter a mão em dinheiro sujo – ou se apropriar de dinheiro limpo – como aconteceu nesse episódio da ISL (International, Sports and Leisure), empresa de marketing que tinha exclusividade na comercialização da Copa do Mundo e participação nos direitos de TV, e, mesmo assim, faliu, com um ROMBO de US$ 300 milhões e um ROUBO incalculável! E pouco antes andou de contrato com Flamengo e Grêmio, que levaram baitas prejuízos, mas nunca divulgaram quem levou grana por lá pra assinar esses contratos.

Vale lembrar que esse caso já vinha rolando há muito tempo e foi o motivo da súbita renúncia de Teixeira à presidência da CBF, do Comitê Organizador da Copa de 2014 e do Comitê Executivo da Fifa, para viver um exílio dourado em Miami e assim sair de cena e escapar de qualquer problema no Brasil, principalmente das incômodas matérias da imprensa. Já Havelange está muito idoso – 95 anos - para temer qualquer coisa e, ao contrário do ex-genro que ele colocou na presidência da CBF em 1989, fica por aqui mesmo, mas teve que renunciar ao lugar que ocupava há 48 anos  no Comitê Olímpico Internacional (COI), para não passar a vergonha de ser afastado pelos seus pares quando o suborno fosse confirmado pela justiça suíça, como aconteceu agora.

Esses casos são emblemáticos e mostram a necessidade da transformação em lei do projeto aprovado pela Comissão de Turismo da Câmara, da qual, aliás, fazem parte entre outros, os ex-jogadores Romário, Delei e Darnley, que, tenho certeza, devem ter votado a favor do projeto. Digo que esses casos são emblemáticos porque mostram como é perniciosa não apenas para o esporte em si, mas para a moralidade pública em geral,  a perpetuação de dirigentes esportivos em seus cargos. Até um sujeito como Havelange, que parecia acima do bem e do mal e havia chegado a uma idade quase centenária com uma aura de respeitabilidade por sua carreira no esporte, acabou corrompido e recebeu 1,5 milhão de francos suíços (US$ 1,5 milhão) de propina da ISL, em março de 1997.

Chega a ser inacreditável que um homem como Havelange, naquela idade (82 anos em 97), já muito rico mesmo antes de entrar no esporte por sua atividade como empresário, tenha jogado seu nome na lama e sido corrompido.  Quanto a Ricardo Teixeira, que recebeu 12,7 milhões de francos suíços (US$ 12,44 milhões) de propina da ISL, entre 1992 e 1997, segundo o inquérito suíço, não há o que estranhar. Sua gestão sempre foi marcada por denúncias de mau uso de dinheiro da CBF, mordomias para dirigentes de federações em troca de votos nas suas seguidas eleições e outras irregularidades.

Mas tudo isso só acontece justamente pela sensação de impunidade que o poder em  entidades como a CBF, a Fifa, e os clubes de futebol dá aos seus ocupantes. Teixeira, por exemplo, é um daqueles casos em que Nelson Rodrigues dizia que, quando o sujeito ia a um estádio de futebol ,perguntava ao torcedor do lado: “Quem é a bola?” Até, que em 1989, Havelange, então mais poderoso do que nunca no futebol brasileiro e já presidente da Fifa, disse: “Você vai ser presidente da CBF”; “Eu, mas por que?”; “Porque é meu genro, e preciso de alguém de confiança lá”. E assim foi feita a vontade de Havelange pelos presidentes de federações que formam o colégio eleitoral da CBF. Deu no que deu: Teixeira acabou com o casamento com a filha de Havelange e ficou na CBF até abril deste ano, quando teve que sair pela porta dos fundos e fugir pra Miami, depois de 24 anos de mandato.

Já Havelange se apossou da CBF no final dos anos 50, ganhou as Copas de 58, 62 e 70 e só saiu em 74, quando derrotou o inglês Stanley Rous na disputa pela presidência da Fifa, com uma mensagem anticontinuista, já que Rous estava no cargo há 18 anos. Resultado: Havelange ficou 24 anos no lugar, sempre se reelegendo por conta de compromissos com países de pouca tradição da África e da Ásia para receberem vantagens da Fifa. Era um ícone do futebol brasileiro, com o tricampeonato mundial de 58/62/70 na conta de sua gestão na antiga CBD e a gestão na Fifa, onde só o lado positivo do crescimento do futebol pelo mundo aparecia e as mazelas eram jogadas pra baixo do tapete, principalmente por  uma imprensa cúmplice e subserviente. E continuaria assim pelo resto de sua vida, com aquela cara amarrada que lhe dava um aspecto austero e de grande benfeitor da humanidade, se não fosse a BBC de Londres descobrir a sujeira da ISL e denunciar o escândalo.

Havelange a, agora, é só mais um corrupto no mundo do futebol, na mesma vala comum de tantos por aí. Eu por exemplo, acho que poucos se salvam, principalmente nos clubes de futebol. Se é que alguém se salva.  As mamatas, as mordomias, as propinas, tudo quanto é safadeza rola solta e sem controle. Eu conheço pessoalmente um presidente de clube que assumiu o cargo como  desconhecido advogado de origem portuguesa, que chegava ao clube de fusca e, quando saiu, dez anos depois, foi embora de Mercedes Benz e era dono de uma ilha na Baía de Guanabara! Esse mesmo presidente foi derrubado por um grupo de oposição com uma campanha contra o continuísmo e em defesa da moralidade no clube. Só um dos presidentes que vieram depois dele ficou 18 anos no cargo! Outro, quase emplacou três mandatos (nove anos) e quase levou o clube à falência.

E há muito mais exemplos. Em Minas, em São Paulo, pelo Brasil inteiro, eles só largam o cargo se der uma merda muito grande. Porque no mundo das propinas, sempre sobra pra subornar os conselhos fiscais e dirigentes de futebol, supervisores de clube, o diabo! Pra ninguém dar com a língua nos dentes. Rola propina em tudo, de venda de jogadores a contratos de publicidade, obras, concessão de cantina, o que vier. Ninguém deixa nada passar sem levar algum ou tirar vantagem seja, financeira, seja política (esportiva ou mesmo partidária, já que muitos fazem do clube trampolim para carreira política). Assim se explica tanta venda de jogador que não aparece no balanço do clube e nunca melhora o caixa de nenhum deles. Ninguém presta contas de nada. E, engraçado, que o Ministério Público, sempre metendo o nariz na vida dos outros, deixa tudo pra lá. Humm!

Por isso é que o projeto de uma reeleição só é tão importante. Acho até que está sendo até generoso; diante desse quadro grotesco, devia era proibir reeleição. Mas, admitindo que uma reeleição já melhora as coisas, é preciso, porém,  que algum deputado proponha uma emenda para incluir também as Confederações , como a CBF, que estão fora porque não recebem recursos públicos.  Só os clubes e as federações, que mamam na Timemania, vão ser atingidos e, assim, os Teixeira e Marin da vida (vice - que assumiu no lugar de Teixeira) poderão continuar com suas façanhas. Em tempo: José Maria Marin logo que assumiu, aumentou seu poóprio salário de R$ 98 mil para R$ 166 mil e continua pagando  o salário de quase R$ 100 mil a Ricardo Teixeira como consultor da CBF)

É bom que se diga: a CBF é uma entidade privada, mas ela representa uma verdadeira instituição nacional, de certa forma um patrimônio do país que cinco vezes campeão do mundo de futebol. Portanto, em nome dos princípios constitucionais da moralidade pública  e da eficiência administrativa ela também precisa sofrer alguma limitação por parte da nossa legislação. E pode começar por um freio nas reeleições, para evitar que novos Ricardos Teixeiras apareçam pra mandar – e se aproveitar – no nosso futebol. Quem sabe, a partir daí, se possa impor algum tipo de obrigação de prestar contas do dinheiro que rola por lá ao torcedor brasileiro – em outras palavras, a nós todos – que, no final, é quem banca tudo isso indiretamen

Nenhum comentário:

Postar um comentário