- Por Jorge Wamburg -
Não encontrei nenhuma explicação para a escolha de 14 de janeiro para esta homenagem, que, como todo Dia de Alguma Coisa, inclusive das Mães e dos Pais, é um dia como outro qualquer que se convenciona ser especial.
Mas hoje essa convenção me fez lembrar de dois técnicos com quem eu tive muito contato em minha atividade de jornalista esportivo, no Rio de Janeiro.
Um, João Saldanha, dirigiu apenas duas equipes em sua carreira de treinador: o Botafogo, clube do seu coração, e a Seleção Brasileira, da qual foi despedido e substituído, antes da Copa de 70, por Zagallo, que acabaria sendo campeão do mundo.
Dizem que Saldanha caiu por pressão do presidente-general Emílio Médici, ditador de plantão na época, no Palácio do Planalto, que entre outras besteiras exigia que ele escalasse Dario Peito de Aço como titular do time. Mas Saldanha também pode ter caído porque era um notório comunista e os militares pediram sua cabeça por isso. Ou ainda porque criou caso com Pelé, dizendo que ela estava precisando de um exame de vista, porque não andava acertando o gol, numa fase em que a seleção vinha jogando mal pra cacete.
Eu, realmente, não sei qual foi o real motivo, e acho que ninguém sabe, porque Saldanha nunca falou claramente sobre o assunto. Eu, na época, só o conhecia pelo noticiário, pois ainda não trabalhava no esporte, e só vim a conhecê-lo pessoalmente alguns anos depois, quando ele era colunista e eu repórter esportivo do Jornal do Brasil. Cheguei até a advogar para ele, numa questão de família, a pedido de um amigo comum, Oldemário Touguinhó, então editor de esportes do JB.
Assim como Saldanha, Oldemário era botafoguense doente e os dois se conheciam desde muitos anos, o primeiro como dirigente do clube e o segundo como jornalista, por sinal um dos melhores do país neste ramo, tanto como repórter como editor. Ambos deixaram saudades, na crônica esportiva e entre os inúmeros amigos que fizeram ao longo de suas vidas.
Quanto a Saldanha, dois episódios são bons exemplos da irreverência e ironia que marcavam sua personalidade e que lhe valeram também muitos inimigos, além dos militares, por motivos políticos. Por exemplo, o ex-goleiro Manga, do Botafogo, do Santos e da seleção brasileira, que ele uma vez botou pra correr com um tiro, até pular um muro num único salto, como se voasse para defender uma bola chutada no ângulo da sua meta. Os dois estavam brigados por causa de críticas de Saldanha ao goleiro, que ameaçara dar uma surra no primeiro encontro que tivesse com o desafeto. Saldanha soube da ameaça e passou a andar armado. No dia do fatídico encontro, não esperou que Manga chegasse perto e atirou para o chão, o que foi suficiente para colocar o goleiro em fuga.
Mas um dos episódios a que me referi acima não foi este e ocorreu justamente quando Saldanha era técnico da Seleção Brasileira. O já mencionado general Médici vivia pedindo pela imprensa a escalação de Dario no time. Até que um dia, de saco cheio com o ditador, Saldanha aproveitou a pergunta de um repórter sobre se ia ou não atender o pedido e respondeu:
- Eu não escolho ministro e ele não escala a seleção...
Em outra ocasião, outro repórter entrevistava Saldanha no campo, antes de um jogo, e teve a brilhante idéia de perguntar ao então treinador da seleção:
- Saldanha, a grama está boa?
- Não sei. Ainda não provei...
É claro que haveria muitas outras histórias e tiradas magistrais de João Saldanha para contar, mas fico por aqui porque vou falar também de outro mestre das quatro linhas, que foi um dos grandes técnicos de futebol que conheci nos anos 1970.
Trata-se de Oto Glória, que começou a carreira como técnico de basquete no Vasco, 30 anos antes. No futebol, ele dirigiu o próprio Vasco, a Portuguesa e inúmeros outros times, no Brasil e no exterior, principalmente Portugal, onde teve tanto prestígio que comandou a seleção do país na Copa de 1966, na Inglaterra. Foi justamente lá que alcançou sua maior façanha, ao eliminar o Brasil e terminar em 3º lugar, a melhor colocação de Portugal em todos os mundiais.
Pois Oto Glória, assim como João Saldanha, era um brilhante frasista. Dele, guardo igualmente duas preciosidades que quero compartilhar com vocês, em homenagem ao “Dia do Técnico de Futebol’. A primeira foi num encontro casual num aeroporto em alguma parte do mundo, onde ambos estávamos em trânsito e nos cruzamos numa sala de embarque. Cumprimentos, abraços e eu pergunto:
- Como vai Oto, tudo bem?
- É, como um caramujo...
- Caramujo?
- Sim, sempre com a casa nas costas...
A segunda do Oto ficou famosa e até hoje volta e meia algum jornalista se lembra e repete, mesmo sem citar ou sem saber quem é o seu autor. Mas, sem dúvida, é a melhor e mais bem humorada definição sobre as agruras da vida de um técnico de futebol em qualquer parte do mundo.
- Técnico, quando perde, é uma besta. Quando ganha, é bestial...



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