“A violência é tão americana quanto a torta de Maçã”Stokely Carmichael
- Por Jorge Wamburg -
Noite
de insônia, recorro ao controle remoto da TV. Primeiro, uma partida de
futebol americano, um dos esportes (se é que se pode chamar aquilo de
esporte) mais boçais que existem, só superado pelo vale-tudo apelidado
de MMA e outras siglas. É só aquele empurra–empurra, agarra-agarra,
mergulhos nas pernas do adversário e outras agressões, em que a bola é o
menos importante: o que importa é parar o cara que está com ela, custe o
que custar, literalmente: ossos quebrados, pancadaria, o diabo. Só
falta sacar o revólver ou uma faca para abater o rival em pleno campo,
para delírio da torcida, que urra e baba de satisfação o tempo todo.
Foi
então que me lembrei da frase de Stokely Carmichael, um ativista negro
nos Estados Unidos dos anos 60/70, nascido em 1941 em Trinidad y Tobago e
que morreu em 1998, e percebi que o futebol americano é uma paixão
nacional porque exprime fisicamente exatamente a outra grande paixão
daquele país: a violência contra o próximo, perpetrada por toda e
qualquer forma, mas principalmente contra os mais fracos e os
estrangeiros de um modo geral, dentro e fora dos EUA, numa forma
pervertida de afirmação da supremacia nacional pela força e pelas armas.
Então,
enquanto procurava outro canal, entendi que a violência está enraizada
na cultura e na vida americana desde suas origens, na revolução contra
os colonizadores ingleses, e essa cultura vem sendo
disseminada e propagada pelo mundo há décadas, primeiro pelo cinema,
depois pela televisão e agora pela internet, mas tudo se somando para
construir o caldo cultural que levou um maluco a matar a própria mãe e
27 crianças numa escola, para em seguida se suicidar.
Depois
da tragédia, que chocou os próprios americanos, mas foi apenas mais uma
de uma interminável sequência de atos semelhantes ao longo dos anos
naquele país, o presidente Barack Obama fala em discutir a liberdade da
compra e venda de armas que impera no país desde que ele existe. Ora,
logo o Obama, que mandou executar Bin Laden no Afeganistão por um
comando de militares assassinos, como vingança pelo 11 de setembro, e
depois foi para a televisão se gabar e ainda dizer que mandou jogar o
corpo no mar!
Isso
seria chocante se antecessores de Obama não tivessem também uma longa
história de crimes impunes contra a humanidade, como o bêbado Bush 2,
mentindo para o mundo que o Iraque tinha armas nucleares para justificar
a invasão do país e a execução do antigo aliado Saddam Hussein, com a
cumplicidade da ONU e de países árabes inimigos de Saddam e aliados dos
Estados Unidos, como a Arábia Saudita, o principal deles, graças ao
comércio do petróleo com os norte-americanos.
Aliás,
por falar em antigo aliado, é bom não esquecer que Bin Laden também foi
um bom e fiel aliado dos Estados Unidos quando o país usou os
muçulmanos para expulsar os russos comunistas do Afeganistão, que na
época, ainda na Guerra Fria, eram o inimigo da vez a derrotar na disputa
pelo poder mundial. Mas isso foi antes de Bin Laden virar o inimigo nº
1, depois de mandar jogar aviões americanos sequestrados por seus
seguidores contra o World Trade Center e o Pentágono.
Antes
dos Bush (o pai foi o primeiro a invadir o Iraque), tivemos Johnson e
Nixon, líderes da matança no Sudeste Asiático, até o pontapé no rabo
dado pelos norte-vietnamitas que tomaram Saigon dos americanos e puseram
fim à guerra do Vietnam. Mas é bom não esquecer que quem começou essa
guerra foi o “santinho” Kennedy, que tinha em seu currículo também o
patrocínio da fracassada invasão da Baía dos Porcos para derrubar Fidel
Castro em Cuba. Mas de todos, ninguém foi pior do que Truman, que deu a
ordem para os bombardeios atômicos a Hiroshima e Nagasaki, preferindo
matar traiçoeiramente mais de 150 mil civis japoneses do que perder mais
soldados para acabar com a Segunda Guerra Mundial. Isso choca, mas é
bom não esquecer que a Segundo Guerra foi marcada pelas atrocidades de
lado a lado, e não apenas dos nazistas, como costuma mostrar até hoje a
propaganda americana. Um dos exemplos mais cruéis foi o bombardeio da
cidade alemã de Dresden, que matou quase 100 mil pessoas numa só noite
com bombas incendiárias.
Enquanto
pensava em tudo isso, sintonizei o National Geographic, um dos muitos
canais que fazem a propaganda do “American Way of Life” disfarçada de
documentários. E assisti a um programa incrível, que tinha como tema os
“Preparadores”, malucos americanos que se preparam para o fim do mundo
ou catástrofes ambientais, como terremotos, tsunamis, etc.
O
que me espantou nesse documentário,não foram as maluquices e
excentricidades dessa gente, mas a liberdade absurda com que portam e
usam armas quer só se vê em filmes de guerras. São fuzis, metralhadoras e
outras armas moderníssimas, mantidas dentro de casa e usadas livremente
até por adolescentes para “treinar” contra possíveis inimigos. E
não é uma ou duas armas, mas dúzias que cada um tem e utiliza como bem
quer. Perto deles, os traficantes do Rio de Janeiro são uns pobres
coitados que parecem usar armas de brinquedo. Um casal, dono de uma loja
de aparelhos de som, chega a trabalhar com pistolas à mostra na
cintura, atendendo os fregueses. Imaginem se um deles reclamar do
troco!Tem um milionário que ensina à filha adolescente a atirar facas e
comprou manequins que, quando atingidos por tiros, que ela também
pratica, parecem abrir feridas e jorrar sangue. Outro sujeito, que
emigrou de Israel para os Estados Unidos há dez anos, agora é candidato a
vereador em uma cidadezinha da Califórnia e quer convencer todo mundo a
usar armas na cinta para se defender de um “iminente” ataque
terrorista.
Numa
terra dessas, um maluco como o que cometeu o último massacre escolar
nos Estados Unidos é apenas mais um entre milhares que, podem, a
qualquer momento, se tornar assassinos de massas indefessas. Porque a
violência, como disse Stokely Carmichael, é tão americana quanto a torta
de maçã.