sexta-feira, 9 de março de 2012

Há risco de o Mundial NÃO sair do Brasil

 - Por Jorge Wamburg - Foto: Dida Sampaio/AE -   
Quem já leu a entrevista do Ministro do Esporte, publicada hoje no Globo online, depois de perdoar o pontapé na bunda do governo enviado pelo secretário-geral da Fifa, Jerome Valcke, diretamente de Londres, vai pensar que me enganei nesse título.

Afinal, o que o ministro disse foi exatamente o contrário: "NÃO HÁ RISCO DO MUNDIAL SAIR DO BRASIL" (com direito a erro de português e tudo, nesse DO, no título do jornal". Mas quem está errado é ele. Para mim,  HÁ RISCO de o Mundial NÃO sair Do Brasil e o Aldo não passa de uma marionete fazendo o jogo da Fifa, que vai mandar no país, inclusive mandando prender e mandando soltar – literalmente – conforme está no projeto de Lei Geral que a abominável Comissão Especial da Câmara aprovou outro dia.

Mas nada melhor para demonstrar o ridículo de dessa situação do que a reprodução fiel dos “brilhantes" pensamentos do Ministro sobre a Copa. Por isso, aí vai, na íntegra,  a entrevista do ministro, uma espécie de "comunista católico", como se constata logo no início da entrevista - por sinal, ótima, dos colegas Evandro Éboli e Maria Lima. Mas uma de uma coisa não abro mão: o título é meu.
BRASÍLIA - Depois de chutes no traseiro e troca de cartas, o perdão. Nesta quarta-feira o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, enviou duas correspondências à Fifa comunicando que aceitava o pedido de desculpas da entidade. Uma carta foi para o presidente da entidade, Joseph Blatter, e outra para o secretário-geral Jérôme Valcke, pivô da crise. Mas enquanto o governo federal se reconciliava com a Fifa, o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, se licenciava do cargo por questões médicas por 30 dias.

A licença foi comunicada por ofício às federações estaduais. Pelo estatuto, José Maria Marin, o mais velho dos vice-presidentes, assumiria o cargo. Um grupo de presidentes de federações, no entanto, defende um rodízio entre os cinco vice-presidentes. Cada um representa uma região do país. O pedido foi feito na última Assembleia Geral da entidade.

Apesar da bandeira branca na crise entre governo e Fifa, Aldo escreveu a Blatter, que "episódios dessa natureza não podem se repetir, em prol da boa preparação da Copa do Mundo no Brasil". O ministro afirmou ainda a Blatter que aceitava seu pedido de desculpas pelas declarações feitas por Jérôme Valcke, que reclamara da falta de empenho do Brasil nos preparativos da Copa de 2014.

O ministro disse também que a presidente Dilma Rousseff receberá Blatter em audiência, mas que a data ainda será confirmada. Na outra correspondência, endereçada a Valcke, Rebelo apenas afirma ter aceitado o pedido de desculpas do secretário-geral, numa mensagem curta, de uma linha e meia.

Pouco antes de mandar as cartas, Aldo recebeu O GLOBO para uma entrevista. Na ausência de uma Santa Genoveva ou outro santo francês no meio das muitas imagens que protegem o gabinete do comunista crédulo Aldo Rebelo, o ministro estendeu uma flâmula da Fifa aos pés de um santo português, Santo Antônio, e da brasileira Nossa Senhora Aparecida. Aldo diz que nessas horas de ruídos e de agruras com o francês Jérôme Valcke se agarra com a padroeira generosa e com o santo casamenteiro.

Ele cobra bons modos nas palavras do representante do órgão e diz que nunca houve, não há e nem haverá risco de que a Copa do Mundo não aconteça no Brasil. Mesmo com muito cuidado e elegância, Aldo não deixa de mostrar que o Brasil não deixará de responder à altura a má educação de Valcke, e parece não ter gostado do mesmo tom usado pelo assessor especial da presidente Dilma Rousseff, Marco Aurélio Garcia, que chamou o francês de "vagabundo". Diz que cada um que responda por suas palavras e de acordo com seu temperamento. Aldo diz que as obras para a Copa estão dentro do cronograma, mas fez duras críticas aos serviços da Polícia Federal no desembaraço das bagagens e das companhias aéreas, além de admitir que os banheiros do Santos Dumont são péssimos e precisam ser melhorados. Sentado à frente de um quadro que retrata a obra do escritor espanhol e perguntado se ele seria Dom Quixote e Valcke Sancho Pança, respondeu: "Cervantes não faria um enredo que nos coubesse no mesmo livro".

O que o senhor achou das declarações de Valcke?
Aldo Rebelo: Vi como um gesto de infelicidade. Quem tem essa responsabilidade precisa ter modos na expressão verbal quando representa uma entidade. Quando se refere a uma instituição, a um governo. Acho que essas coisas dependem muito da formação que você tem. Da educação que você tem. Você reage a bom termo a uma situação dessa natureza.

E das palavras de Marco Aurélio Garcia (assessor especial internacional da presidência), que chamou Valcke de "vagabundo"?
Quem tem que explicar isso é ele, não sou eu. Respondo pelo que eu disse. Não respondo pelo que os outros falarem. Cada um responde de acordo com o seu temperamento.

Antes de responder a Valcke, o senhor conversou com a presidente Dilma Rousseff?
Não julguei necessário. E acho que a presidente tem esferas de preocupação mais importantes. Acho que a presidente deve estar mais preocupada com assuntos muito mais decisivos para o país, por mais importante que seja Copa do Mundo para nós todos. Também não é correto revelar conversas com a presidente. Não considero esse assunto da esfera da soberania do Brasil. Considero apenas da esfera das relações educadas entre pessoas e instituições. É necessário haver respeito mútuo.

A briga com Valcke deixa sequelas?
Só vamos saber depois.

Quando será o próximo encontro com Valcke?
Você tá torcendo para que aconteça?

Há risco de a Copa não acontecer no Brasil?
Não houve, não há e não creio que haverá.

Que avaliação o senhor faz do andamento das obras da Copa?
O cronograma é compatível com o prazo da Copa. Os estádios, na sua maioria, estão com obras adiantadas. Das outras 52 obras de infraestrutura urbana, o calendário mantido é entregar mais de 40 até o final de 2013. São obras que já estavam previstas muito antes da Copa do Mundo. Nem se falava nisso e já havia previsão de ampliação de aeroporto, de metrô para Salvador, para Fortaleza, de ampliação de sistema metroviário, de VLT em outras capitais.

E com relação à questão da hotelaria?
Os investimentos em hotelaria estão previstos muito antes de se falar em Copa do Mundo porque ninguém constrói hotel para Copa do Mundo. Quem vai construir hotel para funcionar durante um mês?! Hotel não é carro alegórico, que você constrói, coloca na avenida e depois recolhe. Hotel só pode ser construído quando você tem demanda, procura sustentável. E isso é o que está acontecendo no Brasil inteiro.

Como superar questões urbanas importantes?
Problemas urbanos temos no mundo inteiro. Até em cidades, metrópoles que já sediaram Copa e Olimpíadas. O trânsito de Pequim é um trânsito fácil? Não. Já foi feito Olimpíadas lá e mesmo com aquela situação de transporte urbano de Pequim. Se os problemas existiam antes continuam a existir. Temos que procurar soluções emergenciais, duradouras não só por causa da Copa, mas porque o Brasil precisa disso.

Como o senhor recebeu as críticas de Ronaldo ao atraso nas obras do Mundial?
Vi a declaração do Ronaldo condenando a forma como ele (Valcke) referiu-se ao governo. O direito de se criticar o governo é um direito democrático. Quem vai contestar que um cidadão ou a oposição critique aspectos da vida social, política e econômica do país? Não. É um direto consagrado. Não respondemos a uma crítica, mas ao uso de um vocabulário inadequado.

Em relação ao Rio, como avalia a situação dos aeroportos do Galeão e Santos Dumont?
Temos no Rio uma das infraestruturas aeroportuárias mais completas do mundo. Temos um aeroporto doméstico muito importante e moderno, que é o Santos Dumont. Temos o Galeão. Temos a Base Aérea de Santa Cruz, que é a principal base do Brasil. O que precisamos não é só ampliar a capacidade de aterrissagem e decolagem. Nem creio que os principais problemas estejam aí. Acho que o principal problema dos aeroportos está na qualidade dos serviços oferecidos. A demora, por exemplo, no despacho e na recepção das bagagens. Mas não é um problema de transporte aéreo. É um problema que a Receita Federal e que a Polícia Federal, no caso dos voos que chegam do exterior, podem resolver. É só disponibilizar mais gente para essa tarefa".

Mas e os banheiros do Santos Dumont?
É outro problema. No Santos Dumont, ficam muito distantes dos passageiros por causa da valorização do espaço comercial mais nobre, mais próximo das áreas de despacho e de bilhetes. Isso também pode ser resolvido. Ficaram distantes e num espaço muito menor, causando constrangimento aos passageiros. Então, algumas medidas podem ser adotadas e não se referem à capacidade dos aeroportos. Claro que a capacidade precisa ser ampliada, mas outras coisas podem ser melhoradas antes. Para os brasileiros que viajam de avião e para os estrangeiros e turistas.

Como encarou a solução encontrada para a venda de bebida alcoólica na Copa?
A bebida foi polêmica em todos os países onde houve Copa do Mundo. Todos os candidatos a Copa assinaram esse compromisso. Acho que o Congresso encontrou uma solução adequada e pontual. Que vale só para a Copa.

Por que o seu partido, o PCdoB, votou contra bebidas alcoólicas nos estádios na Copa?
Respeito a posição dos adversários. Por que não respeitaria a do PCdoB?

O senhor presidiu a CPI que investigou a CBF. Como é sua relação com Ricardo Teixeira?
Um parlamentar, um jornalista, ou uma autoridade policial, quando exerce a função de investigação, não é para conquistar ódio nem amizade do investigado. É uma função institucional ou profissional. Cumpri uma função como presidente de uma CPI. Mas não podemos carregar para o resto da vida uma relação pessoal de amizade ou de inimizade com a instituição ou pessoa que foi investigada. No ministério, tenho que estabelecer relações com o Comitê Organizador Local (COL), que é presidido por Ricardo Teixeira, com a Fifa e os demais entes que compõem esse amplo leque de interesses da Copa do Mundo.

Ricardo Teixeira, inclusive, foi à Justiça para impedir o seu livro sobre a CPI...
Considerei uma violência do Poder Judiciário. Tem que respeitar, mas fiquei naturalmente indignado. Se houvesse ali alguma mentira ou calúnia o que deveria haver era processo por um ou outro. Mas o que houve foi censura.

Quem já leu a entrevista do Ministro do Esporte, depois de perdoar o pontapé na bunda do governo enviado pelo scretário-geral da Fifa, Jerome Valcke, vai pensar que me enganei nesse título. Afinal, o que o ministro disse foi exatamente o contrário. Mas quem está errado é ele. Para mim, a Copa corre o risco de ser mesmo no Brasil e o Aldo não passa de uma marionete fazendo o jogo da Fifa, que vai mandar no país, inclusive mandando prender e mandando soltar – literalmente – conforme está no projeto de Lei Geral que a abominável Comissão Especial da Câmara aprovou outro dia.

Mas nada melhor para demonstrar o ridículo de dessa situação do que a reprodução fiel dos “brilhantes pensamentos do Ministro sobre a Copa. Por isso, aí vai a entrevista, mas uma de uma coisa não abro mão: o título é meu.

Nenhum comentário:

Postar um comentário