quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Demitida do COB diz que só cumpriu ordens em Londres

 - Por Jorge Wamburg -
Bem que eu estava achando muito mal contada essa história de que dez funcionários do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) teriam “roubado” informações confidenciais das Olimpíadas de Londres, aproveitando-se de estarem trabalhando lá,  justamente para...colher informações sobre o evento.

A pressa do COB em demitir todos sumariamente e tirar o seu da reta, dizendo que o Comitê brasileiro não tem nada com isso, pois eles agiram por conta própria, tava cheirando mal. Eu já estava achando que alguém lá de cima sabia, ou mandou, ou as duas coisas juntas. Se não foi o Nuzman, presidente do COB e do Comitê Organizador da Rio 2016, deve ter sido algum dos seus aspones, pois havia 200 – eu escrevi – D U Z E N T O S S... – enviados do COB “trabalhando” em Londres durante as Olimpíadas.

O meu faro não me enganou. Um dos demitidos – mais exatamente uma – tinha 12 anos de COB – e resolveu não ficar calada, no que fez muito bem. Divulgou no blog do jornalista Juca Kfouri carta que mandou ao Nuzman, deixando claro que foi bode expiatório da merda feita pelo COB, ou pelos próprios ingleses, que lhe deram senha e acesso ao sistema para copiar dados, ou seja, não roubou nada e foi até instruída a copiar informações que são de domínio público sobre Londres 2012, durante o trabalho na capital inglesa, para futuro aproveitamento na Rio 2016.

Agora quem fica mal na parada é o COB – leia-se Nuzman - que vai ter que se explicar. Afinal, até o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, se apressou em pedir desculpas aos ingleses, num momento de bajulação explícita que é típica de sua vida política, como bom “comunista” que é.  Sempre foi um puxa-saco de primeira hora, que vivia rezando quando era presidente da Câmara só pra ficar bem com a galera que não gosta do seu partido, o PC do B.

Mas vamos ao que interessa: reproduzo a seguir a carta da ex-funcionária do COB, Renata Santiago, e vocês tirem suas conclusões. Eu já tirei as minhas: os ingleses também não nunca foram flor que se cheire – lembram-se do covarde assassinato do brasileiro Jean Charles pela polícia de Londres? – e podem ter armado essa pra cima dos brasileiros pra encobrir alguma sujeira interna. Tudo é possível.

Eis a carta da Renata Santiago:      

“Prezado Dr. Nuzman,

Antes de mais nada gostaria de agradecer por ter tido a oportunidade de trabalhar com o senhor durante todos estes quase 12 anos.

Tenho plena consciência de que me dediquei ao máximo e sempre cumpri minhas tarefas, e muito além das minhas tarefas, com excelência.

Nunca, em momento algum, os meus colegas, chefes ou os seus clientes se queixaram do meu trabalho, pelo contrário, sempre elogiaram e sempre mostraram satisfação devido ao meu comportamento impecável e ao meu desempenho profissional.

Em relação ao ocorrido em Londres com os secondees Rio 2016, não sei até que ponto a informação correta e completa chegou até o senhor.

Não falo por nenhum deles, mas falo por mim, que sempre trabalhei com um cargo de confiança e nunca lhe decepcionei.

No entanto, na terça-feira, dia 18 de setembro, fui chamada para assinar minha carta de demissão e a explicação que me deram foi que a ordem veio de cima, de nosso presidente, para demitirem a todos os secondees pela acusação de violação de informações confidenciais e comerciais por parte do LOCOG.

Eu era uma das secondees, trabalhei em Londres desde o dia 11 de junho até o dia 15 de agosto no Centro de Serviços aos CONs, na Vila Olímpica.

Ao longo das primeiras semanas, fui instruída a acessar o sistema do LOCOG para estudar alguns documentos necessários para a realização do meu trabalho lá em Londres, já que eu era uma dos NOC Services Team Member.

Outras vezes, acessei o sistema para visualizar e tentar aprender como eles planejaram, desenvolveram e iriam executar o projeto para a Área de NOC/NPC Relations and Services, sempre pensando em adquirir mais conhecimento e poder desenvolver melhor a minha Área de NOC/NPC Relations and Services no Rio 2016.

Afinal de contas nós fomos enviados ali para observar, aprender e reunir informações que nos dessem a capacidade de melhorar nosso planejamento.

Hora nenhuma me apropriei de informações confidenciais ou comerciais.

Sabemos bem que estas informações confidenciais ou comerciais não estariam ao acesso de todos nós secondees da Rio 2016, que recebemos login e senha do próprio LOCOG.

Todas as informações (arquivos eletrônicos, documentos impressos, fotos) reunidas e trazidas ao Rio 2016 por mim, ratifico, não eram confidenciais e muito menos comerciais e foram fruto de um trabalho árduo visando uma melhor organização para os nossos Jogos, sem nenhuma pretensão diferente desta.

Estou muito decepcionada e profundamente triste de ter sido envolvida e nivelada aos demais que realmente podem haver apropriado-se de muitas informações confidenciais e/ou comerciais de suas áreas e de outras.

Não consigo realizar que o senhor tenha acreditado que eu fosse ou que eu seja capaz de cometer atos fraudulentos e criminosos já que sempre demonstrei-lhe minha honestidade e fidelidade e às instituições das quais o senhor é ou foi presidente como o Comitê Olímpico Brasileiro, o Comitê Organizador dos Jogos Pan-americanos Rio 2007, a Organização Desportiva Sul-americana e, por fim, o Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016.

Nunca estive nesses projetos por motivos financeiros e sim por um ideal. Por acreditar no senhor e no seu discurso sobre Movimento Olímpico e Paralímpico.

Não foram apenas 12 dias, foram 12 anos.

E doze anos de muito amor, muita abdicação, muita determinação, muita dedicação, muito profissionalismo e muito caráter.

Despeço-me com a certeza de que sempre fiz mais que o melhor e com a toda a integridade para levar adiante o seu sonho, o sonho de trazer e entregar os Jogos Olímpicos e Paralímpicos no Rio de Janeiro, que passou a ser o meu também e que me foi tirado abrupta e injustamente.

Atenciosamente,
Renata Santiago”