terça-feira, 7 de agosto de 2012
Passa fora. Complexo de Vira-Lata
- Por Jorge Wamburg -
Acabo de ver na televisão o Arthur Zannetti conquistar a medalha de ouro de ginástica nas argolas, a segunda do Brasil nas Olimpíadas de Londres, depois da vitória da Sarah Menezes no judô.
E um detalhe da entrevista do Zanetti, depois da prova, me convenceu de que o maior problema dos nossos atletas nessa competição não é falta de apoio, falta de treinamento ou falta de patrocínio. É, na verdade, o velho Complexo de Vira-Lata, diagnosticado por Nelson Rodrigues em suas crônicas, que ataca os brasileiros quando se vêem diante da responsabilidade de lutar por uma medalha olímpica, seja de ouro, prata ou bronze.
Assim como Zanetti e Sarah demonstraram não padecer desse complexo, outros atletas foram atacados de forma irremediável na hora de competir, acabaram não conseguindo superar a situação e foram desclassificados prematuramente. Aconteceu no tênis, na natação, no atletismo, no basquete feminino, na ginástica artística, por exemplo. Os comentaristas especializados destacaram várias vezes que alguns atletas sequer alcançaram as marcas que já fizeram em outras competições e, por isso, caíram nas fases eliminatórias dos Jogos de Londres. Não é a mesma coisa que perder a disputa pela medalha com um concorrente mais forte, ou melhor preparado, indubitavelmente favorito, como um Michael Phelps ou um Usain Bolt.
Mas o que disse o Zanetti, que me chamou a atenção na sua entrevista pós-ouro? Foi que, entre os agradecimentos à família, técnico, etc. ele citou o psicólogo como um dos responsáveis pela sua vitória. Eis o ponto central da questão. Se o Brasil quiser fazer um papel melhor em 2016, quando as Olimpíadas serão no Rio de Janeiro, tem que trabalhar o lado psicológico tanto quanto o físico e o técnico dos nossos atletas, e tenho certeza de que dessa forma as medalhas vão chover na nossa horta.
Tanto é assim que nenhum atleta brasileiro, depois de eliminado em Londres, reclamou de falta de condições para obter um resultado pelo menos igual ao que já conseguiram, e que, em muitos casos, poderia garantir até a disputa por medalha. Ninguém reclamou, e tenho certeza de que não poderia, pois dá para perceber que nada faltou a eles. Ao contrário de anos atrás, hoje, um atleta brasileiro de nível olímpico pode viver – e bem – exclusivamente do esporte.
O que vi, e ouvi, foram autocríticas sinceras, como a de Diego Hipólito, que reconheceu o erro que lhe custou a eliminação na ginástica de solo, e chegou a dizer que “amarelou”, numa avaliação até severa demais consigo mesmo. A Fabiana Murer também foi honesta, reconheceu que não estava num dia bom e poderia ter feito melhor. E outros apelaram para o lugar comum de que procuraram fazer “o meu melhor, mas não deu”. Só não aceito é alguém dizer que “está feliz”, apesar do mau desempenho.
Isso é que precisa ser corrigido por um trabalho especializado com a cabeça dos atletas. E aí entra o trabalho do psicólogo. É preciso que eles esqueçam, ou pelo menos não levem tão ao pé da letra o lema do Barão de Coubertin – “O importante não é vencer, mas competir” - percam o medo de seus adversários e possam desempenhar, realmente, o que de melhor têm para mostrar numa pista, numa piscina, num tatame, num aparelho de ginástica ou numa quadra.
Só assim, meus amigos, o Brasil poderá, de uma vez por todas dar um definitivo brado de libertação daquilo que tanto nos atormenta nas Olimpíadas:
“Xô, complexo de vira-lata”
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